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PL 07A vida nunca recomeçou
Quando pensamos na história da vida, é comum imaginarmos uma sucessão de organismos independentes. Uma planta nasce, cresce e morre. Um animal nasce, vive e desaparece. Nós mesmos costumamos enxergar nossa existência como um intervalo limitado entre o nascimento e a morte.
A biologia moderna, porém, convida a uma perspectiva diferente.
Em meados do século XIX, Rudolf Virchow formulou uma das ideias mais importantes da biologia celular:
Omnis cellula e cellula. Toda célula provém de outra célula.
Essa frase mudou definitivamente nossa compreensão sobre os seres vivos. Ela significa que nenhuma célula surge espontaneamente. Cada célula existente hoje descende de outra célula que já existia.
Se acompanharmos essa sequência de divisões celulares para trás no tempo, chegaremos aos primeiros organismos que viveram na Terra há cerca de quatro bilhões de anos.
Desde então, essa corrente jamais foi interrompida.
Ao longo dessa imensa história, incontáveis linhagens desapareceram. Mudanças climáticas, impactos de asteroides, vulcanismo, glaciações e grandes extinções eliminaram a maior parte das formas de vida que já existiram.
Mas algumas linhagens permaneceram.
Sem interrupção.
Cada célula originando outra célula.
Cada geração tornando possível a seguinte.
Por isso, alguns biólogos afirmam algo que parece surpreendente, mas está de acordo com a teoria evolutiva:
A vida na Terra nunca precisou recomeçar. Ela simplesmente nunca parou.
Essa ideia nos leva a refletir sobre o próprio conceito de indivíduo.
Quando uma bactéria se divide, qual das duas é a original?
As duas?
Nenhuma?
Ou essa pergunta perde o sentido?
Na divisão celular não existe um "pai" que permanece e um "filho" que surge. A célula original transforma-se em duas novas células, que continuam a mesma linhagem biológica.
Por isso alguns filósofos da biologia descrevem organismos unicelulares como potencialmente imortais. Não porque uma célula viva para sempre, mas porque sua continuidade pode prosseguir indefinidamente, desde que sua linhagem não seja interrompida.
Nos organismos multicelulares, como nós, a situação é diferente, mas a continuidade permanece.
As células que deram origem aos seus pais vieram das células dos seus avós.
Que vieram das células dos seus bisavós.
E assim sucessivamente.
Se voltarmos suficientemente no tempo, encontramos ancestrais comuns compartilhados por todos os seres vivos.
Você.
Uma árvore.
Uma ave.
Um fungo.
Uma bactéria.
Todos fazem parte da mesma grande história iniciada nos primórdios da Terra.
Sob essa perspectiva, talvez nós não sejamos vidas isoladas.
Somos ramificações extremamente complexas de uma mesma continuidade evolutiva, moldada durante bilhões de anos.
Assim como os galhos de uma árvore possuem formas diferentes, mas permanecem ligados ao mesmo tronco, toda a biodiversidade atual representa diferentes ramificações de uma única história da vida.
Os indivíduos passam.
As espécies surgem e desaparecem.
Os ramos crescem, bifurcam-se e alguns se encerram.
Mas a árvore da vida continua crescendo.
Talvez seja por isso que sentimos pertencimento quando caminhamos pela natureza.
Não porque estejamos visitando um mundo estranho.
Mas porque reconhecemos, ainda que intuitivamente, que fazemos parte da mesma história.
Talvez nós não estejamos apenas observando a vida.
Somos uma de suas ramificações mais recentes.
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